25/02/2009

Terça, 24 de fevereiro de 2009, 09h15 Atualizada às 10h16

Os bancos à beira da nacionalização

Alan Greenspan, ex--presidente do Federal Reserve
Paul KrugmanDo The New York Times
O camarada Greenspan quer que agarremos os altos postos de comando da economia.
Ok, não exatamente. O que Alan Greenspan, o ex-presidente da Reserva Federal - e um leal defensor dos mercados livres - realmente disse foi, "Pode ser necessário estatizar temporariamente alguns bancos para facilitar uma reestruturação rápida e ordenada". Eu concordo.
O caso da estatização depende de três observações.
Primeiro, alguns dos principais bancos estão perigosamente próximos de uma situação crítica - aliás, eles já teriam fracassado se os investidores não esperassem um resgate por parte do governo, caso fosse necessário.
Segundo, os bancos precisam ser resgatados. O colapso dos irmãos Lehman quase destruiu o sistema financeiro mundial e não podemos arriscar deixar que instituições muito maiores, como o Citigroup ou o Bank of America, implodam.
Terceiro, enquanto que os bancos devem ser resgatados, o governo dos Estados Unidos não pode bancar, fisicamente ou politicamente, a concessão de presentes enormes para os acionistas dos bancos.
Sejamos objetivos aqui. Há uma chance razoável - não uma certeza - de que Citi e o Bank of America, juntos, perderão centenas de bilhões de dólares nos próximos anos. E o seu capital, o excedente dos seus ativos sobre seus passivos, não é, de longe, grande o suficiente para cobrir estas perdas em potencial.
Comprovadamente, a única razão pela qual eles ainda não fracassaram é porque o governo está agindo como um escudo, garantindo suas obrigações de forma implícita. Mas eles são bancos zumbis, incapazes de fornecer o crédito que a economia precisa.
Para acabar com a sua situação de zumbis, os bancos precisam de mais capital. Mas eles não podem levantar mais capital de investidores privados. Então o governo precisa fornecer os fundos necessários.
Mas olhe só: os fundos necessários para trazer estes bancos completamente de volta à vida ultrapassariam muito o que eles valem atualmente. O Citi e o BofA têm um valor de mercado combinado de menos de US$ 30 bilhões e mesmo este valor é principalmente, se não totalmente, baseado na esperança de que os acionistas conseguirão uma parte de uma ajuda do governo. E se for basicamente aplicar todo o dinheiro, o governo deveria ganhar o controle acionário em troca.
Mas, a estatização não é antiamericana? Não, ela é tão americana quanto a torta de maçã.
Recentemente, o Federal Deposit Insurance Corp. (FDIC) tem confiscado bancos que considera insolventes à razão de aproximadamente dois por semana. Quando o FDIC confisca um banco, ele toma posse dos ativos ruins do banco, salda alguns dos seus débitos e revende a instituição já lucrativa para investidores privados. E é exatamente o que os defensores da estatização temporária querem ver acontecer, não apenas aos bancos pequenos que o FDIC tem confiscado, mas com bancos maiores que estão insolventes de forma parecida.
A questão real é por que a administração Obama continua surgindo com propostas que soam como possíveis alternativas à estatização, mas que acabam por envolver enormes ajudas aos acionistas dos bancos.
Por exemplo, a administração inicialmente lançou a idéia de oferecer aos bancos garantias contar perdas sobre ativos problemáticos. Isto teria sido um grande negócio para os acionistas dos bancos, não tanto para o resto de nós: cara, eles ganham; coroa, os contribuintes perdem.
Agora, a administração está falando sobre uma "parceria público-privada" para comprar ativos problemáticos dos bancos, com o governo emprestando dinheiro para investidores privados para esta finalidade. Isto ofereceria aos investidores uma aposta de uma via: se os ativos subirem de preço, os investidores ganham; se eles caírem consideravelmente, os investidores saem de fininho e deixam o governo levar a culpa. Novamente, cara, eles ganham; coroa, nós perdemos.
Por que simplesmente não ir em frente e estatizar? Lembre-se, quanto mais convivermos com bancos zumbis, mais difícil será acabar com a crise econômica.
Como a estatização ocorreria? Tudo que a administração precisa fazer é levar a sério o seu "teste de estresse" planejado para os grandes bancos e não esconder os resultados quando um banco fracassar no teste, tornando necessária uma aquisição. Sim, a coisa toda teria um gosto de Claude Rains, visto que um governo que tem escorado bancos há meses declara estar abalado, chocado com o estado deprimente dos seus balanços. Mas está tudo bem
. E mais uma vez, o controle acionário governamental a longo prazo não é o objetivo: como os pequenos bancos confiscados pelo FDIC toda semana, os grandes bancos seriam devolvidos ao controle privado assim que possível. O blog financeiro Calculated Risk sugere que ao invés de chamar o processo de estatização, chamemos de "pré-privatização".
A administração Obama, diz Robert Gibbs, o porta-voz da Casa Branca, acredita "que um sistema bancário controlado de forma privada é o caminho correto a seguir". É assim que todos nós pensamos. Mas o que temos agora não é iniciativa privada, é socialismo do limão: os bancos ficam com o lucro, mas os contribuintes arcam com os riscos. E isto está perpetuando os bancos zumbis, bloqueando a recuperação da economia.
O que queremos é um sistema no qual os bancos assumam tanto os prejuízos quanto os lucros. E a estrada para este sistema passa pela estatização.
Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.
Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
Germano José Taufer,